sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Homenagem do Glee ao Michael Jackson

O seriado Glee é famoso por fazer homenagens a grandes músicas com um visual e formato diferentes dos originais. Alguns ficam até melhores que a performance dos artistas que gravaram pela primeira vez. Outros ficam… Confira o video:

Eu achei uma bosta! Na verdade uma heresia colocar um emo pra fazer um clone do rei do pop.

Enquanto não fazem uma homenagem decente ao MJ assista uma performance do ícone clicando aqui.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Fingi ser gari por 8 anos, e vivi como um ser invisível"


Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 
'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social. 

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição
de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma 
garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou? Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma ideia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, frequento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

OBS: Não sabemos ao certo se a história é verídica e nem mesmo de que época se trata. Pelo uso da velha ortografia no texto, acredito que seja old. E provavelmente é fictícia a história, mas de qualquer forma, acredito que corresponda bem a realidade.

Comentário: Esses 8 anos de trabalho do sujeito em questão foram resumidos e apresentados em um vídeo de 30 segundos por Boris Casoy na Band. Conforme já publicado aqui no Perguntas Intrigantes - Livre.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Em defesa do Megaupload e outros servidores online

Amplamente divulgado pela imprensa mundial, inclusive a brasileira, o Megaupload teve seus serviços interrompidos ontem (20/01/12), devido ao SOPA (sigla para Stop Online Piracy Act /Ato para Parar a Pirataria Online) e a PIPA (Protect Intellectual Property Act / Ato para Proteger a Propriedade Intelectual), e alguns de seus proprietários foram detidos em alguns países do mundo.[1]

O Megaupload foi a primeira vítima de uma série de servidores online que terão seus serviços encerrados bruscamente, apesar dos protestos de sites conhecidos como o Wikipedia[2] e o presidente dos EUA, Barack Obama[3], ter se mostrado desfavorável a tais medidas, no Congresso norte-americado, o SOPA defendido pela House of Representatives / Câmara dos Deputados e a PIPA pelo Senado, mostram-se irredutíveis.

Os servidores online não possuem culpa alguma dos arquivos armazenados pelos usuários. Inúmeras foram as vezes que internautas ao se depararem com um link do Megaupload oferecendo um filme, jogo, software entre outras coisas, o qual se trata de pirataria, o servidor retirou do ar, por algum mecanismo que o servidor consegue identificar que se trata de um arquivo ilegal.

A criatividade dos pirateiros não há limite, para dificultar ainda mais a ação dos servidores, eles renomeiam os arquivos para os nomes mais absurdos, além de dividir uma imagem de um CD/DVD/BD, em inúmeras partes para dificultar ainda mais a ação de tais servidores, agora, imagine isso feito milhares e milhares de vezes, como fiscalizar tudo o que é enviado?

A reportagem do SBT de ontem mostrou a riqueza ostentada por alguns dos donos dando a impressão de que os mesmos lucraram em razão da pirataria, o que é mentira, usuários assinam os serviços do Megaupload, mediante concordância de um contrato exposto ao você assinar o serviço, e se vão utilizar para fins criminosos o Megaupload faz o que pode para coibir suas ações.

Muitas pessoas utilizavam os serviços do servidor para trabalho, arquivos com tamanho que excede o permitido a anexação em e-mails, podem ser armazenados em servidores como os do Megaupload.

Obviamente que as ações tomadas devido as SOPA e PIPA, não vão acabar com a pirataria, há outras formas dos usuários obterem produtos digitais ilegalmente, mas com certeza, a maneira como conhecemos a internet nos dias atuais irá mudar a curto / médio prazo. Há razões para crer que se trata de ações de interesse que não são necessariamente os mesmos interesses das empresas que alegam terem sido prejudicadas pelos downloads ilegais.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Eliminação de Daniel do BBB 12: aspectos jurídicos relevantes


Neste fim de semana a casa do Big Brother Brasil 12 pegou fogo, como já era de se esperar, os brothers caíram pra dentro da bebida na festa, e o inesperado aconteceu. O participante Daniel teria supostamente cometido estupro, para os mais radicais, e abuso de confiança, para os mais conservadores.

Essa matéria cretina do blog Perguntas Intrigantes - Livre vem exatamente para fazer algumas considerações jurídicas e apontamentos sobre o caso.

Em primeiras linhas, é de se observar que a decisão foi motivada por uma suposta quebra de regra do BBB, regra esta que não foi esclarecida pela direção do programa qual seria. Não ficou claro para o eliminado e muito menos para o público, as razões da eliminação. Tendo sido justificada apenas como "comportamento inadequado", para nós, um termo indeterminado. 

Só ai, já encontramos uma afronta ao devido processo legal. A Constituição preceitua que qualquer cidadão não deve ser considerado culpado até que haja uma sentença penal condenatória transitada em julgado. Vale dizer que, se o participante sofrer um processo penal , conforme vem sendo noticiado essa possibilidade, se ficar comprovado a inexistência do fato, a responsabilidade da direção do programa em esclarecer o que seria a infringência de regra  por "comportamento inadequado" só aumentará.

Outro ponto bastante controvertido na apuração dos fatos é que somente a suposta vítima foi ouvida, o acusado não teve oportunidade de expor sua versão, o que contraria as regras constitucionais do contraditório e da ampla defesa, ou a versão dele era irrelevante para o esclarecimento do ocorrido?

Diante de todas essas falhas no julgamento do caso, pode acontecer do caso ser levado aos Tribunais por parte do eliminado, caso este sinta-se prejudicado e ajuíze uma ação civil por danos morais.

Digo isto, porque essa decisão de eliminação, quase que sumária, evidencia quase que uma denunciação de culpa, além de culpa presumida. É como se a direção do programa decidisse que ele havia, de fato, praticado uma conjunção carnal sem consentimento.

Isso teria uma consequência jurídica enorme, que causaria um grave dano moral, afinal sair de um programa em rede nacional com o rótulo de "estuprador do BBB" é um fardo pesado demais de se carregar. Quem é que vai contratar um candidato a emprego que pese contra ele uma acusação de estupro? ainda mais se for para algum cargo de confiança. Ninguém, naturalmente.

Uma eliminação dessas, para um sujeito que não possui qualquer vocação artística, e que terá que voltar a vida de ex-BBB e cidadão comum, pode ser a desgraça que fará qualquer cidadão comum ter se arrependido de ter participado do programa.

Mas, como se trata de um modelo, aliás, como a maioria da casa, que não passaram de modelos contratados para fingirem que são cidadãos comuns recrutados, isso pode até ter uma repercussão que pode lhe render alguns holofotes e alavancar uma carreira artística em cima de um grande escândalo, exemplos assim não faltam em nossa sociedade.  

sábado, 14 de janeiro de 2012

UFC Rio


Nessa madrugada de Sábado (14) para Domingo (15) tivemos o evento de MMA, Ultimate Fighter Championship (UFC)142, que consagrou a realização da segunda edição do UFC na cidade do Rio de Janeiro.

De praxe, não se diferenciou muito da primeira edição. Um card um tanto quanto marqueteiro, provavelmente preocupado com o agrado ao público,  com lutas em que tivemos a participação de brasileiros em todas, e vitória brazuca em quase todas.

A realização do evento também contou com uma novidade: tivemos a exibição em TV aberta na Rede Globo (a primeira edição havia sido exibida pela Rede TV), e deu para traçar mais ou menos o futuro dos eventos futuros a serem realizados no Brasil.

Essa matéria cretina vem exatamente com esse objetivo, para traçar aqui pelo menos 8 motivos pelo qual o UFC nunca será um evento mundial realizado no Brasil. Vejamos as razões disso:

Excesso de brasileiros

O primeiro motivo é justamente a presença de muitos brasileiros nas lutas do evento. Além de regionalizar a edição, ainda tem outro adendo, quase nenhum dos lutadores fala inglês, e as entrevistas sempre precisam de tradutores, o que dificulta a organização do evento.

Motivo político

O segundo motivo, vem relacionado ao primeiro, como os lutadores não falam inglês, a entrevista dos vencedores acaba se tornando uma propaganda eleitoral e/ou comercial, onde os lutadores agradecem a governadores, prefeitos, patrocinadores etc, o que torna o evento um tanto quanto chato nesse aspecto.

Motivo religioso

O terceiro motivo é o religioso, os lutadores dão entrevistas com excesso de demonstração de fé, exaltação religiosa excessiva, o que poderá não agradar a outros povos que acompanham o evento, mas professam fé diversa dos lutadores.

Quebra de protocolos

O quarto motivo é a quebra de protocolo dos lutadores. A quebra de protocolos é tamanha que muitas vezes deixa parecer que é falta de organização, mas na verdade os lutadores excedem e não cumprem o combinado.

Na luta do José Aldo, realizada neste Sábado, o juiz interrompeu a luta porque a sirene havia tocado, indicando que o round havia terminado, e o lutador saiu correndo para fora do octágono em direção a um público específico (que será nosso outro motivo abaixo), para comemorar uma vitória que não tinha acontecido ainda.

Por essa razão, não houve a clássica entrevista com o Joe Rogan, não houve anúncio do vencedor pelo Bruce Buffer, o CEO do UFC, Dana White, não conseguiu colocar o cinturão no vencedor, entre outras regras, que já são de praxe nos eventos do UFC.

Torcidas Organizadas

O quinto motivo é o patrocínio que os lutadores brasileiros estão fazendo com clubes de futebol, o que certamente vai ocasionar em rixas de torcidas organizadas, rivalidades entres lutadores e torcedores, que vão associar o evento aos times indiretamente envolvidos, gerando violência e antipatias do público, que para a maioria do público, que são de outros países, não fará o menor sentido nas transmissões ao vivo do evento.

O público

O sexto motivo é o próprio público. Não é um público comum, como ocorre em eventos do UFC realizados nos Estados Unidos ou no Canadá. É um público específico, que está ali exclusivamente para aquele evento, então o comportamento também não é o mesmo. Além de torcerem nitidamente para os seus compatriotas, o público se mostra sempre muito hostil aos lutadores de outras nacionalidades, o que pode não motivar lutadores de grande porte a querer lutar em terras brasileiras, diminuindo a importância do evento.

Juízes tendenciosos

O sétimo motivo é a parcialidade dos juízes do evento, não só os dos julgadores, como também o juiz da própria luta. Como o evento é realizado no Brasil, o UFC coloca sempre o juiz Mário Yamasaki para arbitrar as lutas envolvendo brasileiros, até então não havia problema quanto a isso, mas nessa última edição do UFC Rio, vimos que não é bem assim. 

Em uma decisão por pontos, os juízes julgadores claramente favoreceram um brasileiro que havia perdido a luta. Na própria transmissão do canal Combate, com analistas qualificados comentando e dando a vitória para um canadense, ficaram sem graça após o anúncio do resultado.

O juiz Mário Yamasaki também foi decisivo, juntamente com os juízes julgadores, para a desqualificação de um lutador que havia vencido um brasileiro por knockout, supostamente por aquele ter desferido golpes proibidos durante a luta, o que não ficou constatado nos replays. Além de ter interrompido a luta principal, envolvendo o brasileiro José Aldo, por ter o round terminado, não tendo pulso firme para determinar que havia parado a luta porque o round havia acabado, conforme evidencia os replays da luta.

O resultado dessas situações podem gerar um desinteresse em lutadores estrangeiros a querer lutar em eventos realizados no Brasil, principalmente se forem enfrentar um brasileiro. 

Cards marqueteiros

Outro motivo são os cards. Envolvem excessivas lutas com a participação de brasileiros, naturalmente para agradar ao público local, mas desinteressando o grande público mundial do UFC.

Além do mais, as lutas envolvem oponentes que colocam os brasileiros visivelmente como franco favoritos a vencerem suas lutas, o que demonstra um certo marketing por parte dos organizadores do evento, com claros interesses comerciais.

Esses foram só alguns aspectos que puderam ser observados por olhares críticos de um apreciador de MMA. Claro que nada disso estará nos jornais amanhã, que só farão menções honrosas e heroicas as vitórias dos brasileiros no evento.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A diferença entre os impostos no Brasil e Canadá

Video bem didático sobre diferenças de cobranças de impostos.

Agradecimentos a Giancarlos do grupo do Gmail: “alcoholic rpg” no qual participo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Decisão judicial

Em meio à podridão do Judiciário, uma decisão humaníssima do desembargador José Luiz Palma Bisson:


A decisão foi proferida num recurso de Agravo de Instrumento ajuizado contra despacho de um "juiz" da cidade de Marília, SP (não informaram o nome), que negou os benefícios da Justiça gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta.

O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário mínimo mais danos morais decorrentes do falecimento do pai. Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo, o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O "juiz", no entanto, negou-lhe o direito dizendo não ter apresentado prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por “advogado particular”.

A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a partir do voto do desembargador Palma Bisson é daquelas que merecem ser comentadas, guardadas e relidas diariamente por todos os que militam no Judiciário.

***

“ Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro – ou sem ele -, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna. Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai – por Deus ainda vivente e trabalhador – legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em paubrasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido.

É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro – que nem existe mais – num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.

Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é. O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.

Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, nos pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres. Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico.

Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d’água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.

Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos…

Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir. Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal. É como marceneiro que voto.”

José Luiz Palma Bisson - Relator Sorteado

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012